Atualidades
Células cancerígenas tornam-se mais agressivas devido ao armazenamento de gordura
2016.6.3
Investigadores da Universidade de Lund, na Suécia descobriram que algumas células cancerígenas podem acumular gotículas de gordura, o que parece torná-las mais agressivas e aumentar a sua capacidade de invadir outros tecidos.

Sabe-se que o interior de um tumor cancerígeno é um ambiente hostil, pois há falta de oxigénio (condição que se denomina por hipóxia), nutrientes e níveis de pH baixos, devido à rápida e descontrolada proliferação celular. Estes fatores de stresse são os principais promotores da progressão do cancro, pois desencadeiam uma pressão seletiva muito grande nas células tumorais, que normalmente está associado à diminuição da sobrevivência do paciente e a uma resistência intrínseca aos tratamentos oncológicos convencionais. Isto porque, neste ambiente hostil, muitas células tumorais morrem, mas outras conseguem sobreviver, e por isso são chamadas de “células stressadas”, e estas células que sobrevivem são mais agressivas e resistentes à terapêutica.



Segundo os investigadores estas células para conseguir sobreviver nesse ambiente entram numa fase de repouso, tornando-se assim inacessíveis à radio e quimioterapia. Nesta fase, ao que parece elas acumulam gotículas de gordura, que vão servir como combustível para quando elas deixarem a fase de repouso e voltarem a proliferar. Estes depósitos de gordura podem ser usados para o fornecimento de energia, para a construção de membranas celulares ou para produzir substâncias sinalizadoras, ou para fazer tudo isso ao mesmo tempo.



Neste estudo, os investigadores usaram diferentes tipos de células tumorais onde realizaram uma série de estudos, no sentido de avaliar os efeitos destes fatores de stresse no seu comportamento, nomeadamente na acumulação de gotículas lipídicas, de modo a perceber qual o mecanismo por detrás da sua adaptação a este ambiente hostil.



Relativamente aos resultados verificaram que, tanto em condições de hipóxia como em meio muito ácido, as células tumorais tinham maior capacidade de acumular gotículas de gordura, que provinham de lípidos do meio extracelular, mais concretamente das lipoproteínas, que são agregados moleculares responsáveis pelo transporte de lípidos. Ou seja, as gotículas lipídicas acumuladas provinham da captação de lipoproteínas do meio extracelular por um mecanismo de endocitose, que é desencadeado por fatores de stresse. Este mecanismo de endocitose era mediado pela ligação das lipoproteínas aos seus recetores e aos recetores scavenger (grupo de recetores que reconhecem lipoproteínas de baixa densidade (LDL) modificadas). Para todo este processo de recrutamento e internalização das lipoproteínas, era fundamental a ação dos proteoglicanos de sulfato de heparina (proteínas extracelulares, envolvidas na endocitose de numerosos macromoléculas, e que se sabe que apresentam uma complexa relação com os recetores das lipoproteínas em células não tumorais).



Para além disso, aquando da análise de tumores os investigadores comprovaram que as células cancerígenas que continham as gotículas de gordura estavam localizadas precisamente naquelas partes do tumor onde há défice de oxigénio, e que estas células que continham mais gotículas lipídicas acumuladas tinham uma agressividade maior, evidenciada pela sua capacidade de metastização.



Esta descoberta demonstra claramente a ligação da gordura com as células tumorais cancerígenas, ou seja, da obesidade com agressividade tumoral e é consistente com o facto bem conhecido que a obesidade envolve um risco aumentado de desenvolver determinados tipos de cancro, evidenciando assim o porquê de tumores de pacientes obesos serem mais agressivos.



Tendo presente esta capacidade das células cancerígenas de acumular reservas de gordura, os investigadores acreditam que se pode combater a sua disseminação, impedindo-as de adquirir essa energia adicional. Segundo os autores deste estudo já existe no mercado um fármaco capaz de impedir este efeito, a heparina. A heparina, um conhecido medicamente anti-trombótico, não só tem a capacidade de dissolver coágulos de sangue, mas também de reduzir a absorção de partículas de gordura pelas células cancerígenas.



http://www.eurekalert.org/pub_releases/2016-06/lu-ccb060216.php


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